Há pouco espaço em nossas vidas para o silêncio. Em meio à agitação e ao ruído que emerge do atrito entre minha vida, a sua e a deles, não é de se espantar que nos ceguemos para o óbvio, e que nossas pequenas verdades (tão valiosas, ainda assim) se escondam sob mil disfarces. Porque há certas coisas sobre o mundo, sobre nós mesmos, que só podemos encontrar no silêncio que a solidão nos propicia.
Usamos diversas faces no cotidiano, e cada uma delas oferece um vislumbre de um todo que nem mesmo nós próprios chegamos perto de perceber, veja lá entender. Porém, se estou sozinho, não preciso sorrir pra mim mesmo, se não quiser; não preciso me oferecer palavras gentis; posso até me enganar por algum tempo, mas não muito. Nesse momento, vem a inquietude, as incertezas, a dúvida atroz que fere e paralisa. Mas, ao mesmo tempo, vem uma paz indefinível por gestos ou palavras – e as pequenas verdades aparecem. Como uma vela no escuro que, ao mesmo tempo que ilumina, traz uma consciência ainda maior do escuro que nos cerca. E assim sigo minha vida, guiado por qualquer luz que encontre.
E mais uma vez percebo que nenhuma felicidade é real se não puder ser compartilhada; nenhuma sabedoria tem valor se não puder servir a outros; nenhuma vida se realiza sem amor, seja lá que formas ou traços esse amor possua. Eu sou a equação – algumas vezes harmônica, em outras dissonante – de todas as pessoas que encontrei e que amo, do infortúnio e do contentamento que experiencei com elas, de todos os pequenos instantes em que, apesar de todos os ruídos e disfarces, pudemos, juntos, trazer alguma luz para o escuro do céu.
Mas, o que fazer? Paradoxalmente, às vezes precisamos nos perder para podermos nos encontrar. E aqui estou, longe das pessoas que amo, dos lugares que me acolhem, tentando forjar uma existência nova e talvez, no caminho, encontrar outros lugares para me acolher, outras pessoas para amar – na esperança de descobrir um senso de propósito, de pertencer a algo maior que eu mesmo.
Enquanto isso, continuo seguindo perdido na tradução.
Afinal de contas, às vezes a viagem é o próprio destino, não é?
Junto a minhas palavras desajeitadas, ponho outras mais graciosas de autoria de outrem, palavras que trago comigo há tempos.
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Siga tranqüilamente entre a inquietude e a pressa,
lembrando-se sempre de que há paz no silêncio.
Tanto quanto possível, sem se render,
mantenha-se em harmonia com todos que o cercam.
Fale a sua verdade, clara e mansamente;
Escute os outros, mesmo os tolos e os insensatos;
eles também têm a sua própria história.
Evite as pessoas ruidosas e agressivas: elas afligem o nosso espírito.
Não se compare aos demais, olhando as pessoas como superiores ou inferiores a você:
isso o tornaria vaidoso e amargo.
Viva intensamente seus ideais e o que você já conseguiu realizar.
Mantenha o interesse em seu trabalho; por mais humilde que seja,
ele é um verdadeiro tesouro na continua mudança dos tempos.
Seja prudente em tudo o que fizer,
porque o mundo está cheio de dissimulação.
Mas não deixe que isto o torne cego para a virtude que existe.
Em toda parte, a vida está cheia de heroísmo.
Seja você mesmo.
Sobretudo, não finja afeição,
nem seja descrente do amor,
pois, no meio de tanta aridez e desencanto,
ele é perene como a relva.
Aceite serenamente o conselho dos anos,
abdicando graciosamente das coisas da juventude.
Cultive a força de espírito e você estará preparado
para enfrentar as surpresas da sorte adversa.
Não se desespere com perigos imaginários:
muitos temores nascem do cansaço e da solidão.
Ao lado de uma disciplina sadia,
seja gentil consigo próprio.
Você é filho do universo,
Tanto quanto as estrelas e as árvores;
você merece estar aqui.
E, ainda que não lhe seja claro,
a terra e o universo vão cumprindo o seu destino.
Procure, pois, estar em paz com Deus,
seja qual for a forma que você o der.
E seja quais forem seus trabalhos e suas aspirações
na fatigante jornada da vida,
fique em paz com seu espírito.
Acima de toda mesquinhez, falsidade e sonhos desfeitos,
o mundo ainda é belo.
Alegre-se.
Faça de tudo para ser feliz.
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Esse texto, Desiderata (latim, plural de desiderium, “aquilo que se deseja”, “aspirações”) foi por muito tempo considerado de autoria desconhecida, tendo sido supostamente encontrado na Igreja de Saint Paul, em Baltimore, EUA, no ano de 1692. Na verdade, ele foi escrito por Max Ehrmann, filósofo, poeta e advogado norte-americano, em 1927. A história mentirosa é muito mais legal, mas há de se dar os créditos ao moço, que ele merece.







